terça-feira, 26 de junho de 2012

Era uma vez

Há muito tempo atrás, em um reino distante, uma camponesa esperava. No início, ela esperava pelas visitas de seu amado. Ele vinha todos os dias depois do pôr-do-sol e Hilda o assistia com afinco e alegria; tinha nela grande amor aos cheiros e à vida, ao farfalhar do vento na grama, ao barulho de água. Achava que as coisas todas eram grandes simplesmente por serem. E, depois de se despedir do sol, Isaac aparecia e os dois iam para o estábulo. Conjuravam a palavra, o amor e o sono.
Até que um dia, Isaac parou de aparecer. Balbuciou algumas palavras, se deu ao trabalho de beijar Hilda na testa e não se viram mais.
Nos primeiros dias, ela fingiu estar bem. Continuava a buscar água do poço, a fiar a lã das ovelhas e a cozer a carne. Sorria fingindo. Rir não tinha mais graça e o pôr-do-sol não tinha mais beleza. Hilda entrou num profundo "estar". Antes, havia a esperança de que Isaac fosse aparecer. Agora que ele tinha ido, não tinha mais o que querer ou o que esperar.
Hilda, então, tomou uma decisão drástica. Vestiu uma capa escura, cor de vinho tinto, e se pôs a remar exaustivamente em direção a um castelo - longe, frio e escuro. Normalmente, ela não iria lá (e quem iria?), mas era onde Salotti morava. Sendo ele o mago mais poderoso do reino, haveria de ter uma solução para o vazio de Hilda.
Ela iria lá, portanto, e trocaria suas jóias de herança pela poção mágica - esqueceria Isaac e voltaria a ver beleza nas coisas todas; teria seu vazio preenchido e talvez até esbarrasse com a esperança na rua.
Chegou ao castelo - escuro, feito de pedras grossas e cinzentas e com mármore no piso. Ela atravessou a ponte levadiça e bateu na porta três vezes. Foi recebida por um homem extremamente alto, com a pele branca como leite e olhos azuis marinhos. Hilda presumiu que aquele homem de leves rugas e cabelos prateados pudesse ser um mordomo, mas ele se apresentou como o próprio Salotti. Ele era bonito e bem apessoado; tinha cabelos, unhas e dentes limpos e um terno bem alinhado.
Ele convidou Hilda a se sentar perto da lareira e a falar o que queria. A camponesa tirou uma caixa de madeira com moedas de bronze e jóias que eram seus únicos bens materiais nessa vida, deixados pelo seu pai antes de morrer. Salotti erguei os olhos, parecendo interessado, e ouviu Hilda. Dos lábios dela, saíam as palavras "eu quero esquecer alguém que faz o meu coração doer". "Você está sentindo a pior agonia de todas. Dê-me as jóias; mantenha as moedas de bronze. Vou curar você".
Apenas um comprimido azul claro e tudo aquilo acabaria.


Meio ano depois e Hilda vivia na simplicidade - sorria e era feliz, apenas. Não havia nada que a desconcertasse ou a deixasse aflita, e ela havia desinteressado-se do amor romântico: simplesmente não conhecia ninguém que despertasse sua vontade.
Ela foi pegar água no poço, levou para casa e fez um chá de ervas. Às vezes, cosia vestidos para as mulheres da cidade, longe do vilarejo, e alguns deles lhes rendiam moedas de ouro.
E seus dias assim eram, até que em um deles ela viu um homem perto do poço, montado em um cavalo negro. Ele a viu e lançou um sorriso bonito. Desajeitada, ela ficou com as bochechas vermelhas e ardendo em chamas; abaixou a cabeça de vergonha.
Depois de ter perdido o cavalo de vista e andado alguns metros, Hilda perguntou a uma moradora qualquer do vilarejo se ela sabia quem era aquele homem no cavalo negro. A moradora responde que o nome dele era Isaac e Hilda pegou em si o amor.

Se eu pudesse, me apaixonaria por você um milhão de vezes.

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