sexta-feira, 30 de abril de 2010

Eternos Campos de Morango

- Estou com um sério problema – disse ela, depois de entrar naquela salinha escura, cheia de incensos e velas. Falava com o homem que estava meditando no centro da sala.
Ele abriu os dois olhos e a respondeu:
- O que você tem?
- Não consigo parar de pensar em idéias e teorias póstumas.
- Como é? Como assim, querida?
- Você sabe como é; vida após a morte, para onde vamos depois que tudo acaba. Às vezes penso em por que acaba, se a eternidade valeria a pena. Acho que estou ficando louca.
Ele sorriu à Mona-Lisa.
- Você só não descobriu a verdade ainda.
Ela arregalou muito os olhos e franziu completamente as duas sobrancelhas.
- Como assim?
- Veja bem, já deixaram o recado antes.
- Já? Quem? Como?
- Há quase cinqüenta anos, o recado foi explicado por uma música.
- Que música? – ela começava a se empolgar com a idéia.
- Strawberry Fields Forever.
Agora ela parecia confusa e desapontada, e ao perceber isso, o homem tratou de continuar explicando.
- John Lennon, sempre em busca da paz. Um cara espiritual. É evidente que ele psicografava.
- (?)
- Sim. John Lennon psicografou Strawberry Fields Forever. Não é óbvio?
- Na verdade, não. Olha só, em um pouquinho mais de cinco anos escutando músicas dos Beatles, eu nunca imag...
- Então você não escutava as músicas direito – ele replicou com arrogância.
Pausa.
- Quero saber mais sobre os Campos de Morango.
- É para lá que vamos quando morremos.
- Todos nós?
- Todos nós.
- Até o Mark Chapman?
O homem coçou a cabeça.
- Bom, aí eu não sei. Isso é com eles – falou, apontando para o céu. – Mas a grande maioria vai para lá, sim.
- Que incrível.
- De certa forma. O problema é que não há vida em sociedade nos Campos de Morango. Não é como se fosse outro plano da Terra, entende?
- Prossiga.
- Você tem que aprender a conviver sozinho.
- Completamente sozinho?
- Sim; só haverá você e os morangos, em um nirvana profundo.
- Eu poderei ver as outras pessoas que estarão nos campos de morango?
- Claro que sim; cada um terá sua própria árvore, cada um poderá ver um ao outro. Mas ninguém conviverá um com o outro.
- Por quê?
- Todos estarão concentrados em outras questões. Só haverá você e o útero suculento dos morangos, em eternos orgasmos alimentícios.
A mulher parecia ainda mais confusa do que quando entrou.
- Há outra coisa importante.
- Diga.
- Você só vai estar no Strawberry Fields se você quiser.
- Mas você não disse que todos iriam para lá após a morte?
- Eles vão. Mas não acreditam que estiveram.
- Por quê?
- Nada é real.
Ele voltou a fechar os olhos em posição de concentração.
Ela tinha entendido.
- Aonde você vai? – disse ela.
Ele sorriu.
- Deixe-me levar você lá para baixo, porque eu estou indo para os Campos de Morango, onde nada é real.
Ela descalçou-se e sentou ao lado dele. Fechou os olhos e começou a aspirar o cheiro dos incensos frutíferos.


E os dois continuaram a busca pela eterna paz dos Eternos Campos de Morango.

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