Tinha uma moça sentada lá. E algo nela mostrava que não se parecia com as outras. Ela era diferente. Era miudinha, pequena mesmo. E tinha um corpo formosamente magro. Cabelo cacheado preto, olhos profundos da mesma cor dos cachos e uma boca pequena – lábios que tremiam por entre lágrimas. Seu rosto estava manchado de maquiagem preta que havia escorrido enquanto ela estava chorando.
E ela chorava pelo mesmo motivo pelo qual todos choram um dia. Eva chorava por amor. Ela se sentia indefesa, frágil e pouco atraente. Isso a dava vontade de se enfiar em um enorme casaco com calças largas e esconder todo o seu corpo. Eva chorava por querer ser Lilith, a dama de personalidade forte que preferiu desistir do paraíso do que desistir da sua liberdade. Lilith não se submetia, Eva achava que nascera para a submissão.
Achava que tinha o encontrado, e fazia sentido que isso tivesse acontecido: eles eram iguais. Ela se via namorando seu espelho, seu igual de sexo oposto. Como dois curingas do mesmo baralho – diferentes do resto das cartas, mas iguais entre si. Viveram um ano de utopia – e agora ela estava achando irônico e revoltante que não só a sua, mas que todas as utopias acabassem um dia.
Ela chorou porque se sentia morta. Ela estava morta porque havia chorado.
Eva usava um vestido gracioso, que brilhava e cintilava em cores cintilantes – deveriam ser várias, talvez só algumas. Púrpura, azul, vermelho, branco, dourado e um preto de luto se misturavam, cintilavam e confundiam a vista do vestido da mulher. E o vestido não era a única coisa especial, diria quase mágica, que ela possuía – ela irradiava luz. Ela era toda energia, toda amor. E sua energia linda, aquela energia sempre em fusão com o amor, fora rejeitada. E isso estava doendo em seu peito. Latejava forte, latejava fundo.
Bobagens passavam pela sua cabeça. Caraminholas que transbordavam desesperança, medo e insegurança vinham à tona, vinham a toda hora e no formato dos seus piores pesadelos.
Todos passavam pela praça e observavam a menina-mulher com sintomas de coração partido. Alguns achavam a cena estranha, outros sorriam numa tentativa idiota de ajudar e demonstrar compaixão. A maioria, no entanto, sentia pena. E isso a dava ainda mais vontade de chorar.
Pousaram corvos. Ela não gostou nem um pouco disso. A visão daqueles pássaros sombrios, simbolizando o mau-presságio, se misturava com coisas que ele disse. Coisas ruins e coisas boas. Lembrava das cartas que ela havia escrito para ele. Lembrava de todas as coisas ótimas e lembrava de todas as coisas terríveis das quais poderia se lembrar, desde que essas coisas envolvessem os dois juntos.
E se cansou.
Revivera o passado. Sofrera duas vezes – e daí? Não se sentia bem, não achava que amaria alguém novamente, mas a aceitação viria com o tempo.
Não queria mais se imaginar sozinha, virgem e com quatorze gatos no futuro de cinqüenta anos. Queria amar a todo tempo com um cara de sorriso bonito, queria amá-lo em cima de um piano de cauda enquanto o estéreo berrava The Doors.
Cansou de sentir pena de si mesma.
Com algum esforço, seu vestido genialmente colorido, agora, virou penugem. Eva agora era ave. Agora tinha olhos escuros e penas cintilantes. Penas coloridas pelas cinco cores sagradas.
Levantou vôo, espantou os corvos. Viu-se em chamas, fez com que uma chuva de pó banhasse a praça – e, contente, percebeu que novos ventos não demoraram a soprar, juntar as cinzas da garota e recompô-la.
Ela estava morta; agora ela renascera.
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