sábado, 17 de abril de 2010

A Menina das Unhas Azuis

                Quando ele olhou para o lado no ônibus, a viu. Era uma japonesa que colorira os cabelos extremamente lisos e repicados na altura do busto de vermelho. O vermelho falso do cabelo acrescentava algo de especial naqueles olhos puxados. Mas o que mais encantava o homem era o esmalte cor-de-céu que ela usava. Era de um azul lindo.
                E, como uma chuva de verão, o sentimento surgiu, rápido e intenso. “Estou olhando uma japonesa ruiva. Mais que isso, estou olhando para a menina das unhas azuis”.
                Ele tentou se distrair da enorme vontade que lhe surgira de roer as unhas da moça – concentrou-se em obter informações.
                Pela roupa que ela usava, ficara implícito que ela iria ao centro da cidade. Como ele não saberia dizer a freqüência, desistiu das roupas e foi olhar suas mãos e braços – não usava relógio, anéis ou pulseiras. Nos dedos, só o esmalte azul-cor-do-céu. Ela usava um chapéu, uma espécie de boina, mas o moço não saberia identificar de onde ele viera. Tinha também uma bolsa – simples, preta – e um livro.
                Em um gesto desengonçado, ele deu dois passos para o lado para tentar ver o título do livro. Parecia ser algo de alguma das Brontë, mas especialmente antigo: tinha as páginas amareladas e uma capa terrivelmente desgastada. No canto esquerdo, possuía carimbado um símbolo relativamente conhecido na cidade. Era o símbolo do sebo, que ficava em uma espécie de praça e abria às 18h30, ao anoitecer.
                O homem, pobre vítima de um amor à primeira vista incurável, iria lá à noite. Apesar de morar do outro lado da cidade, apesar de não freqüentar sebos e nem ao menos gostar de ler, ele estaria lá só para ver a Menina das Unhas Azuis.
                A Menina levantou-se do seu banco e pediu licença a ele com uma voz baixa. Puxou a cordinha do ônibus e desceu na próxima parada.

***
                Eram mais ou menos 19h quando ele chegou ao sebo. Nesta noite, estava especialmente vazio. O homem não costumava freqüentá-lo, mas achou estranho que não houvesse mais de vinte pessoas lá.
                Começou a procurar os cabelos vermelhos e as Unhas Azuis. Não achou, e o óbvio lhe veio à cabeça: e se ela não freqüentasse o lugar? E se o livro que lia mais cedo no ônibus fosse somente um presente de algum conhecido? O homem teve uma enorme decepção com sua pequena epifania.
                Saiu a caminhar até adentrar um bosque. Entre as árvores, ele viu uma arquibancada que exibia letreiros enormes, que continham a seguinte frase: "Não haverão milagres aqui".
                Tomou o escrito como um aviso, mas antes que pudesse virar de costas para voltar para casa, sentiu uma mão de mulher agarrando o seu pulso. Olhou para as unhas pintadas de azul.
                Virou-se para a japonesa e a olhou fundo nos olhos. Ela sabia do mesmo jeito que os apaixonados sabiam. Não havia lógica ou provas de que se tinha certeza, mas a certeza existia, e era forte como o aço e contradizia qualquer escrito racional que já fora expresso.
                Terminaram a noite amando-se pelo gramado, sem se importar nem com a lua ou com os átomos. Tudo o que queriam era observar a mão pintada de azul segurando a imensa mão de homem. Para sempre.

“O amor impossível não existe. Ou existe ou não é amor.” (Alejandro Jodorowsky)

                                                                                                                                             Para Rodrigo Correia.

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