Entrou na tenda vermelha com o violão nas costas e se sentou em frente à mulher de imensos cabelos ondulados e negros. Os olhos azuis-acinzentados dela, acompanhados por lábios pintados de batom vermelho, lhe davam uma aparência de espanhola. Ela tinha seios fartos e uma pinta sobre o lábio superior.
Já o rapaz tinha a pele castanha e olhos da mesma cor. Seu corpo era discretamente musculoso e ele possuía uma barba rala. A coisa mais fascinante nele, diria, era o sorriso bonito e contagiante. O sorriso que, hoje, não estava presente.
- Está em chamas – disse a cigana.
- Estou sempre ardendo em chamas. Chamas de amor.
- Percebo. Os calos dos seus dedos se devem à...?
- Minha constante mania de transformar sentimentos em melodias dedilhadas.
- Bonito hábito. Você também canta?
- Sim.
Houve uma pausa.
- Está em chamas.
- Sim, estou. Mas ela não está. O sentimento da bailarina não arde por mim.
- Bailarina?
- Sim. A mais doce e delicada bailarina de todas. Pele branca, olhos de ardósia, cabelos loiros aparados no ombro. Eu falaria sobre o sorriso dela, mas só o vi uma vez: na noite em que ela atirou-se em meus braços e comigo pôs-se a dançar.
- Em Veneza.
- Precisamente. Lindo quadro: por entre ruas e rios de Veneza, a bailarina e o cantor. Eu cantava, ela bailava no meu compasso. Achei que morreria de amores naquela noite.
- E hoje, esse quadro completa um ano desde visto.
- Sim. Comecei a viajar pela Itália, com o intuito de encantar gente com as minhas canções. E agora que estou em Verona, cenário de Romeu e Julieta, me pergunto se é a hora certa de reencontrar a minha bailarina.
A espanhola o analisou com aqueles olhos cinzentos.
- Por que você não está sorrindo hoje?
- Não faz sentido fazê-lo.
- Mas você está sempre sorrindo. Algo lhe tira a paz neste dia. O que é?
- Queria que ela estivesse ardendo de paixão como eu estou – ele disse, em um murmúrio envergonhado.
A cigana sorriu, triste.
- Eu sabia que você viria. E pensei muito no que lhe dizer. Um rapaz de talento tão meigo quanto fazer amor com palavras, que demorou tanto tempo para conquistar a bela bailarina... Tantos versos escritos para ela, mundos que você prometia sem sucesso. Sofreu como um tolo até que ela lhe desse a atenção merecida. Até que, finalmente, vocês dançaram juntos naquela noite. No mesmo ritmo. Meses se passaram até essa cena acontecer – meses em que você se esforçou loucamente para conquistá-la.
O cantor assentiu com os olhos marejados.
- Pois lhe digo, jovem: volte depressa, pois ela está em chamas.
O rosto do cantor se iluminou, e ele abriu aquele especial sorriso que sempre o acompanhava.
Agradeceu à cigana e foi tomar a próxima balsa que saía do Rio Ádige. Chegou em Veneza em questão de horas.
Ao pisar na cidade, usou um cavalo para ir até o teatro onde sua donzela se apresentava todas as noites.
Seu coração bombeava quantidades absurdas de sangue para cada pedacinho do seu corpo. Ele nunca havia sentido o coração tão acelerado como ele estava no momento. Ele enfartaria se visse a bailarina, e enfartaria ainda mais rápido se não a visse.
Estava anoitecendo, quase na hora do espetáculo, quando ele chegou ao seu destino.
O teatro estava em chamas.
O lugar inteiro pegava fogo. Ardia e crepitava em chamas absurdamente quentes e avermelhadas. Tudo isso acontecendo pela presença de um ator descuidado que acendera um palito de fósforos onde não deveria.
Pensando na bailarina, o cantor sentou-se no chão daquela Veneza irreconhecível. Seu coração, agora, estava queimado – como a sua bailarina e o Teatro da Ilusão.
Conto baseado na música “Bailarina”, da banda Veneza em Apuros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Cuidado!