terça-feira, 20 de abril de 2010

Marina

Marina estava com insônia. Ela ficava daquele jeito sempre que tinha algum problema emocional – não dormia direito quando estava sofrendo por amor. Não dormira direito depois do divórcio dos pais. Marina não era uma das amantes mais leais do sono.
Era uma garota incrível, aquela moça. Tinha olhos verdes e focados, cabelos castanhos e lisos, mania de se mostrar séria, paixão por The Doors, um turbilhão de emoções acontecendo dentro dela, tendência à depressão. Ela se mostrava sempre focada, compenetrada em tudo, mas na verdade sua essência era 100% emocional. Marina era confusa, Marina era amor, Marina era fantástica, Marina era exagero e agora estava se revirando na cama. Todos os lugares do seu corpo estavam absurdamente quentes, ela queria se coçar de calor, detestava aquela sensação – principalmente quando estava misturada na sonolência.
Ela foi tomar banho, ligou o chuveiro no máximo de frio que poderia ter. Ela acabara de tomar uma decisão impulsiva.
Saiu do banho, se vestiu com pressa. Ela estava usando uma calça jeans, um tênis preto e surrado e uma blusa justa. A roupa a favorecia muito bem e mostrava a todos a menina bonita que ela era.
Ela pegou as chaves do seu Ford KA e foi dirigir até a casa da pessoa que amava. Suas mãos suavam, ela tentava se concentrar na estrada. Estava nervosa. Sabia que tinha tomado uma decisão importante, mas não tinha certeza de que sua decisão seria aceita ou compartilhada. Ela sentia aquilo mais forte do que jamais seria qualquer coisa.
Estacionou na frente daquela casinha branca, onde já fora tantas vezes, onde já amara com tanta intensidade e tantas vezes que já havia até perdido a conta.
Tocou a campainha e alguns minutos depois, uma mulher apareceu vestindo uma camisola curta de seda. Ela era linda – japonesa. Pele branca e lisa, cabelos compridos e negros, olhos escuríssimos sempre muito bem pintados por delineador, rímel e lápis de olho preto. Sua boca tinha um tom indefinível, mas que vagava do rosa ao castanho.
A mulher olhou bem no fundo dos olhos de Marina. Marina resolveu ganhar das palpitadas loucas do seu coração e abriu a boca.
- Alice, vamos nos casar.
Alice olhou pra Marina e tentou conter um riso de desdém.
- Marina, pela milésima vez, nós terminamos. Eu não te amo mais. Acabou.
- Alice, pelo amor de Deus. Nascemos uma para a outra. Você é perfeita. Nunca imaginaria um namoro tão bonito quanto o nosso acontecendo de novo. Vamos nos casar.
- Marina, não. Não vou me casar com você. É ilegal que nós duas nos casemos no Brasil.
- Então se mude comigo para o exterior! Vamos fugir de todo mundo, fugir dessa gente preconceituosa, desse governo ignorante. Casa comigo, Alice, pelo amor de Deus, se não eu me mato.
- Marina, pára com isso. Não quero me casar com você.
- Tem outra pessoa, é isso?
- Não, não tem mais ninguém. Só não podemos continuar nos vendo, muito menos nos casar.
- Por que não, Alice? Por quê?
- A gente não tem dinheiro, não tem aprovação da nossa família, a gente não tem nada a ver uma com a outra, a gente não tem motivo nenhum para se casar. Até porque a gente terminou. Resumindo, a gente não tem nada.
- A gente se completa. E você tá colocando todas as coisas racionais antes do mais importante.
Os olhos da japonesa agora pareciam cansados demais.
- O que é o mais importante, Nina? Fala logo, vá embora e eu vou voltar a dormir.
- AMOR, Alice! Amor é o mais importante de todas as coisas, “o amor é algo esplêndido! Amor nos leva aonde pertencemos, tudo que você precisa é amor”!
- Pára de citar Moulin Rouge. A gente não vai dar certo, eu não te amo mais, não tem um motivo racional para que...
- Larga de ser exageradamente racional.
Ela ficou brava.
- Marina, olha só. Quando você parar de ser exagerada, exageradamente emocional, você vem me procurar e a gente tenta de novo. Por enquanto, não. Boa noite, Marina.
E bateu a porta na cara da depressiva, que houve de passar os próximos meses se cortando.
A dor era alívio. Suas cicatrizes emocionais viraram físicas – a diferença é que agora elas jamais sumiriam.

Brasília, 19/04/2010.

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